|
À
primeira vista, de fato, o intestino
não tem uma função invejável na
dinâmica do corpo. Parece sobrar para
ele um trabalho pouco nobre: colocar o
lixo para fora. Porém, diferen-temente
do que acontece dentro de uma casa,
onde essa obrigação pode ser o início
de uma briga séria entre casais, o seu
intestino, por mais preguiçoso que
possa parecer, sempre faz isso com a
dignidade de quem sabe que essa é
apenas uma parte do seu trabalho
diário, coisa que os médicos e
pesquisadores descobriram
recentemente. Esse órgão recebeu novo
conceito da ciência; há alguns anos
ele passou a ser chamado de segundo
cérebro (leia "Com o rei na barriga").
É no intestino que acontece a
separação do que deve entrar no nosso
organismo, ou seja, os nutrientes e
daquilo que deve ser dispensado:
restos alimentares e detritos. Das
condições desse sistema depende o
estado de humor, a existência ou não
de celulite, o aparecimento da
sinusite e de várias doenças. Numa
situação ideal, em que a flora
intestinal está em equilíbrio, isto é,
há mais bactérias boas do que más, a
parede intestinal consegue fazer
perfeitamente essa separação;
absorvendo os nutrientes e dispensando
os detritos, funciona como se fosse um
filtro.
Se a flora intestinal está
desequilibrada, com mais bactérias más
do que boas e tem também a presença de
fungos, esse processo simples de
separar nutrientes dos restos
alimentares fica danificado, o que
afeta de forma prejudicial todo o
organismo (veja quadro "Seu intestino
tem problemas"). Imagine que para
fazer perfeitamente essa filtragem, o
intestino fosse um tecido com tramas
bem fechadas. Quando existe algum
desequilíbrio, surge um processo
inflamatório nas paredes. Voltando à
comparação com o tecido, a trama vai
abrindo e ficando frouxa, tão frouxa
que acaba formando alguns buraquinhos.
"Por eles, passam para corrente
sanguínea resíduos de alimentos. Como
o organismo não reconhece esses
elementos, entra em estado de alerta",
explica Denise Madi Carreiro,
nutricionista funcional, que atua em
São Paulo e é conselheira do Centro
Brasileiro de Nutrição Funcional, de
Porto Alegre.
O que acontece quando toca o alarme? O
cérebro dá uma ordem para o sistema
imunológico atacar os detritos que
foram parar no sangue. O organismo
passa então a produzir substâncias
para combater esse agressor e
diariamente o sistema imunológico é
despertado, após cada refeição, para
uma luta contra tantas impurezas
lançadas na corrente sangüínea. Esse
processo acontece naturalmente quando
se trata de doença, de ataque de vírus
ou bactérias, mas, apesar desse tipo
de desequilíbrio não ser doença, o
sistema imunológico "reconhece" que
esses resíduos agridem o organismo e
causam doenças. Se isso acontece
sempre, o processo inflamatório
torna-se crônico, o que esgota as
defesas naturais e é por isso também
que a resistência fica tão baixa. "O
excesso de permeabilidade na parede do
intestino acaba dificultando a
absorção de nutrientes. Você come, mas
não se nutre", explica Denise. Como se
isso não bastasse, o fígado acaba
sobrecarregado, porque esses detritos
são uma carga extra para ele, que não
consegue eliminar todas as toxinas que
o organismo produz como seria natural
que ocorresse diariamente, em
condições normais. A celulite, que é
conseqüência de uma alteração de
circulação e de um processo
inflamatório ganha terreno para
aparecer. O conjunto destes fatores,
somados à má nutrição das células
favorecem ainda mais o seu surgimento.
Flora desequilibrada
A mastigação insuficiente, seja por
hábito, seja por pressa, a ingestão de
bebidas que acompanham todos os pratos
e os intervalos longos entre uma
refeição e outra são alguns dos
fatores que desequilibram a flora
intestinal. Se você não mastiga bem os
alimentos, eles chegam mal digeridos
ao intestino. Primeiro pro-blema: o
aproveitamento dos nutrientes é menor
porque o organismo só consegue
absorver a par-te mastigada, que está
na superfície do alimen-to engolido; o
restante, que não foi triturado pelos
dentes é eliminado sem ser
aproveitado. Segundo problema: se o
alimento está mal dige-rido, ele
fermenta e vira alvo para proliferação
das bactérias ruins - que passam a
disputar espaço na flora intestinal
com as boas bactérias.
A ingestão de líquido nas refeições
também afeta o bom funcionamento do
intestino. "Se você bebe enquanto
come, dilui o ácido clorídrico do
estômago, modifica o pH do sistema
digestivo e as más bactérias tendem a
se reproduzir", explica Patrícia
Davidson Haiat, nutricionista
funcional do Rio de Janeiro. Outro
fator que desencadeia o desequilíbrio,
e conseqüen-temente forma os tais
buraquinhos na parede intestinal, é o
uso constante de remédios como
antiinflamatórios, antibióticos e
anticoncepcionais. O fato de você
tomá-los com freqüência e por conta
própria, sem o conhecimento e a
prescrição médica ou odontológica, é o
que pode desencadear o problema.
Procure conversar com o profissional
de saúde que lhe indicar esse tipo de
medicamento sobre os efeitos
colaterais que podem acontecer no seu
caso, de acordo com o seu estado de
saúde.
De volta ao equilíbrio
Da mesma maneira que em pouco tempo
pode-se atrapalhar o funcionamento do
intestino, com algumas semanas de
cuidados é possível obter melhoras
significativas. "Isso acontece porque
o intestino renova rapidamente as
células, só perde para a velocidade de
renovação celular da medula óssea",
explica Denise. A volta do equilíbrio
é um processo - no qual se percebe,
dia após dia, mudanças no corpo e na
saúde (veja quadro "8 passos para dar
adeus à celulite"). "Tenho pacientes
que viram a celulite sumir com dois
meses de mudança alimentar. A flora
intestinal se restabelece, a parede
volta a ficar com a permeabilidade
ideal e com isso o processo
inflamatório crônico acaba, pondo fim
a todos os sintomas, inclusive a
celulite", explica Denise.
Seu intestino tem problemas?
Se você apresenta um destes sintomas
com freqüência, sua flora intestinal
não está equilibrada. Se for o seu
caso, procure um nutricio-nista
funcional.
•Vários quadros seguidos de
inflamações ou infecções, as famosas "ites":
sinusite, rini-te, otite, amidalite,
bronqui-te, cistite e celulite;
•gripe de repetição;
•língua esbranquiçada;
•micose de unha;
•doenças auto-imune, co-mo psoríase e
alergias;
•cansaço e irritabilidade.
Com o rei na barriga.
Esse órgão tão complexo é responsável
pela:
•produção de 80% de toda a sero-tonina
- que é o neurotransmissor fundamental
para a sensação de bem-estar - do
nosso organismo. Se o intestino não
está equilibrado, a produção de
serotonina fica insuficiente. Por esse
motivo, hoje já se associa quadros
depressivos ao mau funcionamento
intestinal.
•produção de células do sistema
imunológico, responsáveis pela de-fesa
do nosso organismo. Quando você está
com a resistência baixa, com uma gripe
atrás da outra ou infecções seguidas,
o problema pode estar relacionado a
esse órgão.
•produção de hormônios e enzi-mas que
direcionam o caminho dos nutrientes
dentro do nosso orga-nismo, otimizando
a digestão, o metabolismo e a absorção
de nutrientes.
8 passos para dar adeus à celulite
1. Mastigue bem. Não há um número
certo de mastigadas. Vai depender do
alimento que está sendo mastigado. Por
exemplo, demora-se muito mais para
mastigar grãos de milho do que para
mastigar batata assada, mas os dois
tipos de alimentos devem ser muito bem
mastigados de forma que na hora de
engolir estejam praticamente líquidos,
sem que você consiga distinguir o que
havia colocado na boca.
2. Evite ingerir líquidos durante as
refeições. Se for impossível,
limite-se a dois golinhos, porque 100
mililitros já prejudicam o sistema
digestivo. Fora das refeições, beba
pelo menos três litros de água de boa
qualidade por dia.
3. Alimente-se a cada três horas.
4. Modere o consumo de cafeína e
bebidas alcoólicas.
5. Coma diariamente folhas, legumes,
frutas com casca, leguminosas como
feijão, ervilha e grão-de-bico e
sementes. "A fermentação desses
alimentos serve de combustível para as
bactérias boas, que protegem a nossa
flora intestinal", diz Patrícia.
6. Inclua no seu cardápio alimentos
capazes de nutrir a parede do
intestino como: óleos, gérmen de
trigo, folhas verde-escuras,
legu-minosas, frutas, frutos do mar,
grãos integrais, batata-doce, salmão,
se-mentes oleaginosas.
7. Use temperos secos ou frescos como
alecrim, oré-gano, gengibre, cur-ry,
canela, menta, hortelã. "Todos aju-dam
a equilibrar a flora intestinal. O
mesmo acontece com algumas se-mentes
como as de abóbora, melão e melancia",
explica Patrícia.
8. Consuma probióticos e prebióticos
diariamente. Probióticos são bactérias
boas, que ajudam a equilibrar a flora.
"Os ideais são aqueles que vêm em pó
ou cápsula. Os contidos em iogurtes
têm poucos tipos de bactérias, são
muito sensíveis à mudança de
temperatura e, na maioria das vezes,
são preparados com açúcar, um alimento
para os fungos e as más bactérias",
explica Patrícia. Já os prebióticos
são os alimentos para as bactérias do
bem; veja algumas de suas fontes:
alho, cebola, alho-poró, alcachofra,
aspargo, chicória e banana verde. Os
prebióticos também podem ser
encontrados em lojas, em forma de
comprimidos, pós ou
líquidos.
Quando tudo vai bem...
O seu intestino não precisa estar
necessariamente preso ou solto para
você ter um problema na flora
intestinal. Se as suas fezes são
freqüentemente endurecidas ou moles
demais, se você altera episódios de
prisão de ventre com diarréia ou sofre
com gases, o risco de você estar com a
flora intestinal desequilibrada é
muito grande. "As fezes dizem muito
sobre nossa saúde. O ideal é que elas
tenham o formato de uma banana
marrom", explica Patrícia. |