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Dr.
José Luiz de Sá Cavalcanti
Um aspecto interessante é que
aparentemente há um comprometimento que
não é exatamente da memória, sendo
preferível considerar que o indivíduo
apresenta comprometimento cognitivo em
domínios específicos, como comprometimento
de atenção ou comprometimento de funções
frontais. Como os critérios de diagnóstico
de demência não se aplicam desde o início
na doença de Parkinson, o diagnóstico de
déficit cognitivo e de demência na doença
de Parkinson acaba sendo negligenciado,
daí os números tão díspares relativos à
prevalência, que efetivamente vão de 2% a
81% conforme a metodologia adotada. Ou
seja, conforme o tipo de avaliação que se
faz, encontra-se uma prevalência
diferente. Talvez fosse interessante
esclarecer que para fazer um diagnóstico
de demência em doença de Parkinson não se
deva reproduzir os critérios diagnósticos
da doença de Alzheimer.
É preciso considerar que no caso da doença
de Parkinson haverá comprometimento
cognitivo domínio-específico, que com a
evolução mostrará proximidade com a doença
de Alzheimer, da mesma maneira que numa
fase mais avançada da doença de Alzheimer
ocorrem manifestações parkinsonianas. As
duas doenças têm uma implicação entre si e
é necessário definir melhor quais são as
características cognitivas que são
alteradas até precocemente na doença de
Parkinson. Isso facilitaria o diagnóstico
e o conhecimento mais real sobre a
prevalência da doença.
Dr. João Carlos Machado
Alguns estudos sobre incidência podem de
alguma forma responder melhor essa
questão. Entre eles, há um bastante
interessante de Aarsland e colaboradores
demonstrando que o risco de uma pessoa com
doença de Parkinson ter demência é seis
vezes maior do que o de uma pessoa da
mesma faixa etária sem doença de Parkinson
portanto, é um risco muito alto. Em um
estudo prospectivo, aproximadamente 80%
dos pacientes com doença de Parkinson
acompanhados durante 8 anos de seguimento
desenvolveram demência ao longo do tempo.
Em outro estudo com 50 pacientes
demonstrou-se que 54% dos pacientes
desenvolveram demência no período de 14
anos de acompanhamento. Dessa forma, é
essencial conhecermos melhor quais são os
portadores de doença de Parkinson com
maior probabilidade de desenvolver a
demência ou, em outras palavras, quais são
os fatores de risco principais. Nesse
sentido, além da idade avançada que já foi
mencionado, outros fatores de risco foram
reconhecidos. Entre eles: os sinais
atípicos de parkinsonismo relacionados ao
envolvimento do sistema não-dopaminérgico,
representados pela presença de
comprometimento axial e de fala,
ocorrência precoce de falência autonômica,
apresentação simétrica da doença e
moderada resposta à levodopa.
Dr. Paulo Bertolucci
O parkinsoniano com maior risco demencial
é aquele no qual a doença se iniciou mais
tardiamente, que tenha um parkinsonismo
atípico, com mais bradicinesia e rigidez e
menos tremor, que apresente má resposta à
levodopa, com depressão, e que pode ter
flutuação de desempenho. Esses são os
pacientes de maior risco e deveriam
constituir o grupo-alvo para estabelecer o
diagnóstico de demência na doença de
Parkinson. Um dos problemas é que esses
pacientes são deprimidos e fica difícil
determinar se as alterações cognitivas que
apresentam exercem impacto em seu
'dia-a-dia. Infelizmente, a maior parte
deles desenvolverá demência, mas não
todos.
Dr. João Carlos Machado
Um ponto interessante destacado em uma
recente reunião em Genebra reforçou como
fator de risco a alteração precoce da
fluência verbal. Ainda que não haja
alterações importantes da linguagem, a
detecção precoce da alteração da fluência
verbal poderá ser importante ferramenta
para o diagnóstico. Além disso, já foram
relacionados como fatores de risco a
ocorrência de estados confusionais
precoces e psicose relacionados ao uso de
levodopa, a presença de alucinações
visuais e os sintomas motores graves,
especialmente bradicinesia, desde o início
da doença.
Dr. Paulo Bertolucci
Pode-se usar a fluência verbal como um
índice de processamento, de velocidade
psicomotora, de função executiva, isto é,
a busca de exemplares dentro de uma
categoria supõe um bom lobo frontal.
Dr. José Luiz de Sá Cavalcanti
A fluência verbal é o desempenho mais
precocemente alterado, dentro da chamada
bradifrenia observada nesses pacientes,
assim como naqueles com a demência com
corpos de Lewy, doença da qual a demência
na doença de Parkinson se aproxima.
Complementarmente, incluem-se também
fatores de risco quando o parkinsonismo é
simétrica e bilateral desde o início, ou
quando há manifestações vegetativas
precoces, em que as manifestações são mais
de linha média, isto é, doentes
predominantemente acinéticos, que não
começam com tremor unilateral que evoluem
lentamente, com distúrbios do humor do
tipo depressão, com alentecimento geral do
pensamento e manifestações neurológicas
atípicas, COI distúrbios autonômicos,
doença simétrica e pouca resposta à
levodopa. Esse último item é essencial e
até mesmo conceitual, pois na doença de
Parkinson típica o paciente melhora com
levodopa. Quando isso não ocorre, as
chances de que a manifestação cognitiva
apareça mais precocemente são maiores. Os
pacientes com início de doença de
Parkinson em idade mais avançada também
apresentam maior risco de demência.
Dr. João Carlos Machado
Entre os pacientes muito idosos e aqueles
com mais fatores de risco associados, há
de se considerar a maior ocorrência de
co-morbidades. Muitas delas agravando a
instabilidade postural, a hipotensão
ortostática e os distúrbios de marcha,
tornando mais evidente o comprometimento
axial, que não necessariamente ocorre como
conseqüência da doença de Parkinson, o que
dificulta mais ainda a avaliação e a
abordagem desses pacientes. |