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Dr.
José Luiz de Sá Cavalcanti
Atualmente são reconhecidas tanto as
alterações cognitivas(falta de percepção)
quanto a demência propriamente dita na
doença de Parkinson, o que impõe
esclarecer tais conceitos, pois para
definir demência tal como caracterizada
pelo DSM(Departamento de Saúde Mental -
EUA) é fundamental que haja alteração
primária de memória associada aos
distúrbios das atividades da vida diária e
do comportamento, entre outros. Esse
enfoque não se enquadra muito bem no
diagnóstico da demência na doença de
Parkinson, que apresenta algumas
características diferentes.
Esse aspecto foi comentado por Murat Emre
em sua revisão sobre a doença de Parkinson
publicada no Lancet Neurology de 2003, na
qual esse autor cita que talvez fosse
interessante considerar que existem
alterações cognitivas na doença de
Parkinson e deixar para estabelecer o
diagnóstico de demência na doença de
Parkinson somente quando essas alterações
cognitivas implicarem manifestações que
possam ser amparadas pelo conceito de
demência expresso pelo DSM. Trata-se de um
ponto interessante, uma vez que pode não
haver concordância quanto a esse conceito.
Em outras palavras, haveria duas
possibilidades para determinar a efetiva
demência na doença de Parkinson:
1) quando fossem atendidos os critérios do
DSM, ou
2) simples¬mente quando fossem encontradas
alterações cognitivas de qualquer tipo, já
que elas podem ocorrer muito antes do
surgimento das manifestações francas demenciais em relação à memória.
Com relação a incidência e prevalência de
demência na doença de Parkinson, os
trabalhos disponíveis na literatura
mostram, conforme a metodologia adotada,
números muito variáveis, pois alguns
autores apontam 2%, outros registram até
81%. De uma maneira geral, pode-se afirmar
que características demenciais importantes
na doença de Parkinson ocorrem em até 40%
dos pacientes em alguma fase da doença,
evidenciando então uma prevalência
extremamente importante.
Dr. João Carlos Machado
Realçando a importância do tema da
demência na doença de Parkinson, uma
questão relevante é que a doença de
Parkinson é cada vez mais reconhecida como
uma desordem neuropsiquiátrica e não
mera¬mente como antes, considerada como
uma doença associada com transtornos do
movimento. Além dos sinais extra
piramidais, várias alterações psiquiátricas,
tais como apatia, depressão,
irritabilidade, etc., bem como o
comprometimento cognitivo poderão ser
encontrados. É grande a dificuldade para o
diagnóstico precoce do comprometimento
cognitivo na doença de Parkinson em
analogia com o que ocorre no
comprometimento cognitivo leve tipo
amnéstico precedendo a demência na doença
de Alzheimer. Quanto à dificuldade de
estabelecer a prevalência, é importante
ressaltar também que os critérios
diagnósticos ainda são pouco precisos ou
sistematizados. No entanto, realmente a
taxa de prevalência de acordo com a maior
parte dos estudos está em torno de 40%
entre os doentes portadores de doença de
Parkinson que em algum estágio da doença
desenvolveriam demência.
Vale lembrar que as taxas de prevalência
variam bastante ao considerarmos estudos
comunitários e hospitalares. Em clínicas e
hospitais, a prevalência varia entre 6% e
28%; ao passo que na comunidade se situa
entre 12% a 41%. O que não se pode negar é
que se trata de uma doença com prevalência
elevada.
Outro aspecto relevante é a idade como
fator de risco independente: quanto mais
velho for o porta¬dor de doença de
Parkinson, maior a probabilidade de
ocorrência de demência associada com a
doença de Parkinson.
Dr. Paulo Bertolucci
Com relação às estimativas, com base no
pequeno número de estudos brasileiros, o
país deve ter cerca de 250 mil
parkinsonianos. Conservadoramente,
pode-se considerar que 100 mil deles
apresentam distúrbio cognitivo ou
demência, embora esse diagnóstico não seja
visto com muita freqüência. Na doença de
Parkinson outros fatores podem mascarar
essa percepção. Trata-se de uma doença em
que há um distúrbio motor, há um retardo psicomotor, levando à expectativa de que o
parkinsoniano seja lerdo, o que
infelizmente também é um sintoma-chave na
demência.
Quanto aos aspectos neuropsiquiátricos, é
preciso relembrar que o próprio Parkinson
chamou atenção para a depressão, mas não
conseguiu avançar muito, pois fez o
diagnóstico a partir de observação nas
ruas de Londres, ou seja, o foco eram as
alterações do movimento. Em suma, o
indivíduo apresenta alteração cognitiva,
mas já existe uma expectativa prévia de
que ele não seja capaz de fazer muita
coisa, porque está com movimentos lentos,
vagaroso, pode estar deprimido, porque faz
uso de medicação que admitidamente pode
interferir com a cognição. Enfim, a
impressão é que o diagnóstico de demência
na doença de Parkinson é como uma corrida
de obstáculos: a demência tem que
ultrapassar várias hipóteses possíveis
antes de se tornar evidente.
Nesse sentido, talvez a situação dos
milhares de indivíduos com doença de
Parkinson seja pior do que a daqueles com
doença de Alzheimer. Quando se considera o
conceito de critérios diagnósticos, muitas
vezes, para o paciente que não apresenta
problemas de memória, descarta-se a
possibilidade de demência. Evidentemente,
isso serve para a maior parte das
demências, mas não para todas;
infelizmente, a doença de Parkinson com
demência é uma das exceções; observam-se
com freqüência muitas disfunções
executivas, mas a falta de memória não é o
aspecto mais chamativo, o que também
dificulta o diagnóstico.
Talvez esse cenário só melhore quando
houver maior percepção de que é preciso
tomar cuidado diante de uma limitação em
Parkinson e não estabelecer definições de
antemão, sendo sempre necessária uma
avaliação detalhada do quadro. Além disso,
provavelmente não haverá nenhum teste de
rastreamento, que poderia funcionar na
doença de Alzheimer, que funcione na
demência da doença de Parkinson. Talvez
fosse útil um bom teste de atenção e de
função executiva, o que, no entanto, não
faz parte dos rastreamentos, enfatizando
novamente a necessidade de avaliação mais
detalhada, que por sua vez não é
facilmente disponível. Em resumo, trata-se
de uma situação um tanto complicada, na
qual primeiramente é preciso haver a percepção e em seguida a confirmação da
demência.
Dr. João Carlos Machado
É preciso mencionar também que o impacto
das demências na doença de Parkinson é
considerável para os pacientes, familiares
e cuidadores. Os sinto¬mas cognitivos são,
com freqüência, mais estressantes do que
os sintomas motores e podem ser a maior
causa de incapacidades. As demências na
doença de Parkinson estão relacionadas com
taxas de mortalidade mais elevadas, razão
freqüente de admissão em instituições de
longa permanência e de maior ocorrência de
depressão, apatia, irritabilidade e
sintomas psicóticos aumentando de forma considerável o fardo do cuidador.
Portanto, a presença de demência na doença
de Parkinson tem um impacto muito grande
em vários sentidos.
Dr. João Carlos Machado
Médico Geriatra,
Diretor do Aurus IEPE – Instituto de
Ensino e Pesquisa do Envelhecimento de
Belo Horizonte-MG
Dr. José Luiz de Sá Cavalcanti
Professor Adjunto de Neurologia da UFRJ
Diretor do Instituto de Neurologia
Deolindo Couto da UFRJ
Dr. Paulo Bertolucci
Chefe do Setor de Neurologia do
Comportamento
Coordenador do Núcleo de Envelhecimento
Cerebral(NUDEC) |